Navegando em águas desconhecidas: o que muda na indústria de Cruzeiros pós Covid-19

Diversas mudanças são esperadas antes de uma eventual retomada de um dos segmentos mais afetados pela crise do Covid-19

Em 2018, a indústria dos cruzeiros cresceu 7% em relação a 2017, média superior a taxa de crescimento do turismo mundial. Em 2019, o setor manteve os bons números e segundo a análise do relatório anual da Associação Internacional de Cruzeiros Marítimos (Clia), mais de 30 mil pessoas embarcaram em viagens de cruzeiros na última temporada.

As expectativas para 2020 eram ainda mais altas. A indústria de cruzeiros marítimos se aproximava dos 300 navios navegando por todos os cantos do mundo e ainda de acordo com a Clia, 32 milhões de passageiros embarcariam em cruzeiros ainda em 2020. O que as projeções não contavam era com a paralisação total da indústria por conta da pandemia global do Covid-19.

O surto do novo Coronavírus provocou um enorme golpe na indústria de cruzeiros, que até então, era o setor que mais crescia no Turismo mundialmente. As restrições de viagens adotadas por diversos países, seguindo as recomendações da OMS, culminaram no fechamento de portos, fazendo com que praticamente todos os navios de cruzeiro da Terra parassem de navegar.

Mas o pesadelo foi ainda maior. É possível que a indústria marítima seja a última a se recuperar visto que as ocorrências causadas pela doença devastaram a reputação dos cruzeiros. No final de março deste ano, a Clia confirmou que 5,4% da frota global permanecia em alto mar, com diversos hóspedes, por conta da pandemia. Sem ter onde aportar, dezenas de navios tiveram que continuar navegando – e alguns deles, com passageiros infectados pelo Covid-19.

Como foi o caso da Holland America Line com seu navio Zaandam, que totalizava até então 73 hóspedes e 116 tripulantes com sintomas de gripe e ou resfriado, fazendo com que sua parada fosse recusada em vários portos. Apenas no dia 02 de abril, após navegar desde 14 de março buscando um porto para atracar com alguns passageiros em isolamento e quatro óbitos, que o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump autorizou a atracagem e o desembarque no porto de Fort Lauderdale, na Flórida.

Por esses motivos, a indústria terá que se reinventar e adotar uma série de mudanças para recuperar a popularidade e uma reputação de viagem segura quando a pandemia for solucionada e as viagens forem retomadas. Alguns especialistas da área fizeram algumas apostas do que vai mudar na indústria global dos cruzeiros. Confira algumas tendências:

O FIM DOS RESTAURANTES NO ESTILO BUFFET

Para alguns especialistas, os dias dos restaurantes no estilo self-service dentro dos navios estão contados.
Embora não se espere que os buffets de cruzeiro desapareçam completamente, é provável que os navios aumentem a equipe nesses locais, para que a tripulação sirva a comida nos pratos dos passageiros. Isso seria uma tentativa de reduzir a transmissão de doenças que podem ocorrer quando várias pessoas tocam os mesmos utensílios de servir. É provável que os cruzeiros também removam itens muito tocados, como saleiros, pimenteiros e outros das mesas.

CRUZEIROS SEM IDOSOS OU ENFERMOS

Quando as viagens de cruzeiro forem retomadas, alguns navios podem “recusar”, pelo menos por um tempo, a presença de viajantes mais velhos ou com condições médicas pré-existentes – que apresentem um maior risco de complicações do Covid-19.

Antes de deixarem de navegar em março, várias linhas de cruzeiros, incluindo Royal Caribbean e Celebrity Cruises, anunciaram novas regras que proíbem viajantes com idade acima de 70 anos. Somente os passageiros que apresentassem uma carta médica afirmando que estes indivíduos estavam aptos a viajar poderiam embarcar. As armadoras em questão também afirmaram que negariam o embarque de qualquer pessoa com uma doença crônica grave, independente de sua idade, nos navios.

A medição de temperatura e atestados médicos estão entre as possíveis medidas adotadas pelos navios

NOVAS MEDIDAS DE SAÚDE

A checagem de temperatura antes do embarque dos passageiros também será uma das prováveis mudanças. Além disso, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) também sugeriu que as armadoras desenvolvam planos para “monitoramento a bordo de passageiros e tripulação por meio de verificações de temperatura e exames médicos”. Ainda não se sabe ao certo como esses planos seriam executados mas é possível que todos os passageiros sejam submetidos a exames e testes.

MENOS NAVIOS, MENOS PASSAGEIROS E TARIFAS MAIS BAIXAS

Outras tendências apontadas pelos analistas são a diminuição na frota de navios, preços mais baixos e menos passageiros. É possível que as viagens de cruzeiro retornem em breve (porém não muito provável) mas isso não significa que todos os navios estarão de volta ao mar. O CEO da Carnival Corp., Arnold Donald, afirmou que as viagens de cruzeiro devem ser retomadas em momentos diferentes e em destinos diferentes, com apenas alguns navios da frota retornando inicialmente.

Em uma pesquisa enviada aos investidores, o analista de lazer Harry Curtis, da Instinet, disse que os preços dos pacotes também podem cair de 25% a 30%, em média, após a retomada do cruzeiro. A demanda baixa na procura desses pacotes nos próximos meses, motivada pelo medo podem ocasionar em preços mais baixos nas próximas temporadas. Além disso, pode haver uma redução significativa nas multidões a bordo. É possível que operar com capacidade inferior a 100% de ocupação possa ser um requisito para que os navios de cruzeiro retornem à operação em pelo menos algumas partes do mundo, até para seguir as recomendações de distanciamento social de pelo menos um metro.

A Dream Cruises e a Star Cruises já anunciaram que pretendem reduzir em 50% o número de pessoas permitidas nas áreas comuns de entretenimento e recreação a bordo, além de outras medidas como a redução pela metade da capacidade de passageiros nos ônibus usados ​​para as excursões em terra.

POLÍTICAS DE CANCELAMENTO E REMARCAÇÃO MAIS FLEXÍVEIS

Quase todas as principais armadoras tem facilitado suas políticas de cancelamento e é provável que as linhas de cruzeiros continuem sendo mais flexíveis sobre cancelamentos e remarcações nos próximos meses e temporadas. O objetivo é que essa medida incentive e convença os clientes a fazerem reservas sem que fiquem preocupados com as mudanças globais. A Costa Cruzeiros por exemplo, anunciou as novas regras de remarcação e cancelamento que passarão a valer na temporada de 2020/2021.




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